Wednesday, May 28, 2008

A simbologia divina

Poucos sabem o real significado da Páscoa, que celebra a ressurreição DELE (optamos por grafar as palavras relacionadas a DEUS com todas as letras maiúsculas, ao invés apenas da primeira, em sinal de respeito e demonstração de amor pleno e incondicional), data religiosa simbolizada pela figura do fofinho roedor coelho.

Há uma mensagem subliminar na própria figura do coelho, pois ELÃO (pronome no aumentativo para melhor caracterizar a grandiosidade de DEUS) disse: “Crescei e multiplicai-vos”. O coelho é um animal que se reproduz rapidamente, por isso ele é utilizado como símbolo da Páscoa, que celebra a renovação. Portanto devemos nos renovar fazendo muito sexo. Só que, como somos espertos, graças à inteligência que ELÃO nos deus, criamos a camisinha e outros métodos contraceptivos para que possamos praticar a procriação sem que procriemos de verdade. Assim podemos obter prazer sem superpovoar o planeta — apesar que isso não tem dado lá muito certo, mas poderia ser pior. Vejam aí o brilhantismo da inteligência humana, que se adapta às suas necessidades. Evolução?! Talvez… Reflitamos a respeito — e aumentar as despesas familiares com fraldas, enxoval de bebê, educação, roupas, alimentação, dinheiro pro rolê, etc. E é por isso que são dados ovos de chocolate na páscoa, já que o chocolate simboliza o sexo, pois todos sabemos — ou deveríamos saber, já que o mundo todo, ou quase, aprecia tal guloseima (ver anexo) – que as reações químicas provocadas no nosso organismo ao comermos chocolate são semelhantes às que sentimos quando fornicamos. E o ovo simboliza tanto os testículos, por causa do seu formato, quanto a maternidade, já que abrimos o ovo e de lá vem uma surpresa.

Até hoje as pessoas estão confusas pensando no porquê do coelho, que não é um animal ovíparo, carregar uma cesta cheia de ovos, e de chocolate, ainda por cima. Tal questionamento é inevitável: “Putaquelamerda! Mas coelhos não botam ovos! Muito menos de chocolate!” Tolos! ELÃO os enviará para o inferno por tamanha ignorância! Aliás, por que o inferno é quente? Para que não seja possível comer ovos de chocolate, pois eles derretem e perdem a forma de ovo. E, para piorar, torna-se impossível comer o chocolate, que derrete facilmente, simbolizando uma impossibilidade de fazer sexo, grande prazer da vida humana. Portanto o sexo é impraticável no inferno e difundido no céu (lembre-se do preceito citado no 2.º parágrafo).

ELÃO não dá ponto sem nó!

Anexo:

Chocolate em outras línguas

  • Inglês: Chocolate
  • Espanhol: Chocolate
  • Francês: Chocolat
  • Alemão: Schokolade
  • Italiano: Cioccolato
  • Holandês: Chocolade
  • Chinês: 巧克力
  • Japonês: チョコレート
  • Coreano: 초콜렛
  • Grego: Σοκολάτα
  • Russo: Шоколад
  • Afrikaans: Sjokolade
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Monday, May 26, 2008

Dragão-de-komodo

8 horas da manhã de uma quinta-feira. Toca o maldito telefone! Que merda eu tinha na cabeça quando comprei essa joça?! É da agência de empregos, me convocando para uma entrevista dentro de uma hora. Ando absolutamente sem grana, por isso preciso ir para esse martirizante processo de seleção empregatícia mesmo que minha cabeça esteja quase me incapacitando a arrastar minha bunda até o banheiro para escovar os dentes, já que a noite de ontem foi pesada. É, extrapolei um pouquinho os limites. Saímos para tomar algumas cervejas, mas o “algumas” se transformou em um monstro alucinado, que se metamorfoseou em uma ressaca incontrolável e nada estimulante. O pior é que nem tenho mais a coragem de dizer que nunca mais irei beber, pois sei que isso seria uma mentira daquelas bem sem-vergonha.

Dentes escovados, micro banho tomado, roupa trocada. Aliás, escovar os dentes nessas horas é absolutamente essencial e vital, pois o gosto que fica na boca é tão pútrido e amargo que chego a me sentir um dragão-de-komodo; acho que se eu mordesse minha própria língua morreria por infecção generalizada. Vou à tal agência para ver no que dá. Tenho que ir a pé, pois meu senso de responsabilidade ímpar fez com que eu gastasse todo o dinheiro com bebidas ontem, portanto não tenho um tostão para pegar um ônibus. Meu corpo implora ensandecidamente para que eu retorne à cama, mas esse mesmo corpo pouco provido de qualidades também irá implorar por alimentos dentro em breve, e minha despensa não anda por empolgar olhares famintos. A geladeira, então, parece uma região dos confins da Sibéria, com gelo por todos os lados e nada mais. Apenas alguns vegetais em estágio avançado de putrefação, um tubo de ketchup quase vazio, uma garrafa d’água completamente vazia – para o desespero da minha ressaca devastadora – e uma caixa oitavada com uns pedaços de pizza que eu nem tive coragem de abrir para ver como estavam. O cheiro nauseabundo empesteou a casa. Era o momento propício para sair correndo em jejum.

Após uma caminhada de meia hora, que normalmente eu faria em uns 15 ou 20 minutos se não estivesse tão deteriorado, chego à agência de empregos. Minha cabeça dói, meus olhos doem, meu estômago dói, estou zonzo e minha boca está seca, fora o bafo monstruoso de álcool e tabaco. Entro tentando me manter aprumado com a camisa amassada que não tive tempo de passar. Levo a mão à boca para tentar disfarçar o bafo asqueroso e pergunto à atendente onde tem água. Bebo diversos copos e, então, vou ao que interessa. Preencho algumas fichas abarrotadas de perguntas imbecis e mal consigo me concentrar. Pego meus documentos para colar as respostas, pois meu judiado cérebro está incapacitado de lembrar de tantos números. Preencho tudo com a maior má vontade do universo e entrego a ficha à moça. Ele é lindinha e meiga, mas não consigo esboçar qualquer reação de simpatia. Sou encaminhado à outra sala para uma entrevista. Entro sozinho, já que estou atrasado. Um sujeitinho pedante e enfadonho me faz algumas perguntas e parece perceber que não estou nos meus melhores dias. Ele diz que estou dispensado e que serei comunicado caso eu seja convocado para a próxima etapa, coisa que obviamente não irá acontecer, pois minha entrevista foi um fracasso constrangedor. O pouco que resta do meu organismo urge pela minha cama.

À tarde, ao acordar, a ressaca está menos intensa, mas a fome está avassaladora. Vou à padaria e peço para o seu Toninho marcar quatro pães, duzentos gramas de mortadela e uma tubaína. O restinho do ketchup foi suficiente para apenas um dos pães. Não é um manjar dos deuses, mas ao menos consegui comer sem vomitar. Ligo a tevê. Só tem merda! O que fazer numa sexta-feira à tarde sem nenhum centavo na carteira e com uma puta ressaca? O óbvio: dormir.

Acordo no breu da noite, que se iniciara há pouco mais de uma hora. Ligo a luz e penso: “Puta merda, como vou fazer pra pagar a conta de luz?”. Deixo pra pensar nisso depois. A dor de cabeça ainda permanece, apesar de já não ser tão intensa. Mas a sede é grande. Tomo água da pia do banheiro enquanto lavo o rosto numa tentativa vã de me recompor. Mais um pão com mortadela, o último que sobrou. Nesse instante ocorre uma revolução em meu estômago. Corro para o banheiro e quase viro do avesso. Suando frio, fico por cerca de uma hora sentado no trono, não como um rei, mas como um demônio horroroso em meio ao fedor e à imundície. Outro banho se faz absolutamente necessário. O telefone toca, saio correndo todo molhado pra atender. Luciano me chamando pra tomar umas cervejas, “Afinal, hoje é sexta-feira!”, ele argumenta. Alego não ter dinheiro, mas isso não o convence. Seu poder de persuasão é elevado e logo estamos no boteco. Dúzias de cervejas, garotas, conversas acaloradas, porções de amendoim e milhares de cigarros. Outro boteco. A mesma história: cervejas, garotas, conversas, amendoins, cigarros…

8 horas da manhã. A campainha toca. Meu cérebro está derretendo e mal consigo abrir os olhos. É a dona Zuleica cobrando o aluguel atrasado. Será que se eu mordê-la no pescoço ela morre de infecção generalizada?

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Friday, May 23, 2008

Pelo expurgo da dor

A maldição de ter que viver a cada dia
Supera a dor da dúvida e do delírio.
A frivolidade é a carta magna do meu curso,
E Morfeu me acompanha no devaneio
Precedido pela ressaca apaziguadora.

Martírio desatinado e vagaroso
Que posterga o labor da velha soturna.
Ela se regozija com o meu desalento,
Enquanto o Sábio ri sarcasticamente
Da minha rota camisa-de-força.

Os Cisnes trazem de volta o desespero,
Seguindo seu curso em um lago de sangue.
Pálidos espectros dançam ao meu redor,
Rindo e bradando a maldita canção.
Os velhos amigos chacais estão de volta!

Cada segundo parece urgir por outubro,
Quando todas as dores serão levadas e
Expurgadas de almas carentes e vívidas.
Momentos de plenitude que instilam vida
E volvem o sorriso aos filhos de Dioniso.

Posted by Léo Passos (minuteman@bol.com.br) in 18:19:43 | Permalink | No Comments »

Dor compartilhada com os amigos que desconheço

Alguém para conversar? Não! Simplesmente, NÃO!
Uma negação desesperadora que me causa a mais angustiante dor.
Senão este copo de bebida, o que seria de mim?
Pouco mais do que um trapo jogado em um canto…
Um rato perdido em um esgoto escuro e imundo…
Ou seja, pouco além daquilo do que sou.
Um pastel murcho na feira da manhã seguinte,
A vadia ébria da noite passada,
O vômito jogado na privada esquecido pela ressaca.

Quanta dor posso suportar?
O quanto devo refletir?
A que ponto posso me julgar?
Para qual caminho vou me levar?

Sou tão incerto quanto posso supor,
Porém tão correto quanto imagino ser.
Minha “alma” urge por uma razão
E meu desatino se torna a solução.
Mais um copo, e prometo encontrar a resposta.
Mas lembre-se: promessas são dívidas!
E dívidas nem sempre são pagas!
Pois é, meu amigo, você foi enganado!
Porém, há uma problema: eu também fui!

Quanta dor posso suportar?
O quanto devo refletir?
A que ponto posso me julgar?
Para qual caminho vou me levar?

Segure em minhas mãos e vamos caminhar.
Mas não lhe prometo momentos gloriosos.
Pois só posso lhe proporcionar,
Toda a infinita segurança que não possuo.
O meu império foi construído em bases fracas,
A areia era grossa demais, e as pedras, muito ralas…
Alguma coisa faltava. Porém, eu não sabia.
Meus vizinhos avisaram. Eu não ouvi.
Pobre de mim.

Quanta dor posso suportar?
O quanto devo refletir?
A que ponto posso me julgar?
Para qual caminho vou me levar?

Mais um verso que segue doloroso
Mais uma linha que surge como um martírio.
Até quando irei postergar a dor?
Palavras difíceis que, ingenuamente, tentam distorcer
Tudo aquilo que enxergo como sofrimento.
Os amigos que não conheci não diriam isso.
Mas eles bem saberiam o que dizer.
Afinal, eles são quem são.
E somente a eles é a quem eu dedico esses versos.

Por isso repito:

Quanta dor posso suportar?
O quanto devo refletir?
A que ponto posso me julgar?
Para qual caminho vou me levar?

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Wednesday, May 3, 2006

Os sabores das lembranças

Em minha adolescência, como a maioria das garotas, eu tinha sonhos: casar, ter filhos, ser bem sucedida e, principalmente, aguardava ansiosa pelo grande encontro com meu príncipe encantando e pela tão esperada primeira vez. Confesso que meus almejos não eram nada criativos e não passavam de ideais pequeno-burgueses juvenis. Ora, mas eu não passava de uma adolescente comum de classe média.

O casamento não aconteceu, os filhos não vieram, o conceito de vida bem sucedida já é bem relativo para mim hoje em dia e os príncipes e vagabundos encantados surgiram tão rápido quanto sumiram do meu caminho. Alguns até eram bons rapazes, mas eu custei a enxergar isso e hoje eles levam suas vidas fora do meu alcance. Talvez tenha sido excesso de autodefesa. Talvez… De qualquer forma, eu acredito que tenha sido melhor dessa forma. Ao menos para eles…

É incrível como algumas passagens de nossas vidas podem influenciar pelo resto de nossa história. Parece que o gosto amargo nunca sai da boca; as tristes lembranças nunca vão embora; a ferida nunca se fecha. O câncer nunca morre! No entanto, as doces lembranças vão se apagando, se apagando, até que elas deixam de ser tão doces ou até que deixam de ser lembranças. Já não me lembro mais do sabor do algodão-doce que eu comia nos parques de diversão, não me lembro da sensação do vento batendo no rosto quando eu andava de patins no parque, não me lembro do nome de nenhuma colega ou professora da escola e não me lembro de como era a nossa casa. Simplesmente não me lembro.

Mas eu me lembro perfeitamente da minha primeira vez. Lembro-me como se tivesse sido ontem, como se tivesse ocorrido há alguns minutos. E também me lembro do vazio interminável que senti logo em seguida. Engraçado, me lembro do vazio, mas não me recordo de muitas coisas concretas. De concreto, para mim, só existem duas sensações: ódio e dor.

A primeira vez não teve nada de cor-de-rosa, não foi romântica e nem de longe foi como eu esperava que fosse. Mas certamente foi inesquecível. Amargamente inesquecível. Nunca vou me esquecer daquela barba nojenta roçando o meu pescoço, o bafo pungente de uísque e aquelas ameaças que, por vezes, vinham em tom consolativo. Tais memórias custaram a deixar de me perseguir incessantemente, mas frequentemente retornam de maneira aterradora.

Hoje eu não tenho mais sonhos. Porém, o maior deles eu realizei. Espero que você esteja queimando no inferno, papai! Inegavelmente isso me deixa mais feliz e tranqüila.

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Tuesday, April 25, 2006

Imperfeito Soneto Para Uma Mulher Perfeita

Certa vez ouvi falar sobre a divina proporção
Que rege toda a infinita beleza da criação
A fração 1,618 é a base dessa complexa teoria
Que, para muitos, foi motivo de grande simpatia

Certa vez avistei uma garota que me causou grande emoção
De imediato fui vítima de uma enorme empolgação
Senti-me impelido a estar em sua terna companhia
A partir de então lutei por aquela que me aprazia

A linda mulher se tornou o amor da minha vida
Tornei-me inebriado de paixões e sentimentos abstersos
Pude, então, dar início a minha jubilosa sobrevida

Indigna de tamanha beleza é essa minha simples cometida
A almejada divina proporção não existe nestes versos
Porém abunda na mais bela das musas: a minha prometida

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Monday, April 24, 2006

Subversão

Não adaptado a elementos nocivos
Que divagam incólumes a outrem
Sigo manifestando o meu desdém
Contra aqueles que me são lesivos

Lanço em ti meus atos explosivos
Não serei mais um infeliz refém
Fartei-me de teu bronco nhenhenhém
Redijo versos protestativos

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Sunday, April 23, 2006

Alma Pesada

Ontem eu não sabia ao certo quem eu era
Doravante, tornei-me figura austera
Infante até o porém, surgiu a besta-fera
Ora essa, a conseqüência foi tão sincera

Rompi meus parcos eixos no desespero
Anarquia gerada em meio ao entrevero
Incutiu-me a dor e deu vida ao exaspero
Violência arraigada no exagero
Abase coaxial deste meu esmero

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Wednesday, April 19, 2006

A Tal da Sensibilidade

Onze e meia da manhã em um quarto numa pequena casa do subúrbio. Um casal como outro qualquer que acabara de acordar.
― Porra, Augusto. Você é grosso pra caralho!
― Ué, por quê?
― Isso é jeito de falar com a sua mulher: “amor, vamos dar uma trepada”?
― Há dez anos eu falo assim contigo e você nunca reclamou. Por que toda essa indignação agora?
― Porque eu cansei desse seu jeito grosseiro. Vem para cima de mim fedendo álcool e me tratando como se eu fosse uma vadia barata qualquer.
― Vadia barata, não. Eu disse “amor” antes de lhe fazer o convite. Além do mais, você não é nenhuma virgem abstêmia.
Clarice se pôs a chorar.
― Querida, por que você está chorando? Tudo isso porque eu lhe convidei para uma fodinha?
― Olha, se eu soubesse que você iria se tornar um ogro insensível, eu nunca teria levado essa relação adiante.
― Você me conheceu em um show do Discharge. Você deveria saber que eu não seria nenhum cavalheiro galanteador.
― Eu não estou pedindo para você se tornar um Werther ou um Harry Haller, peço apenas para que você seja mais romântico, mais sensível. Demonstrar um pouquinho de carinho pela mulher que você diz amar não seria nada constrangedor.
― Você sabe muito bem que eu te amo, só que o nosso amor não é hollywoodiano, é Almodóvar. Não é Romeu e Julieta, é Sid e Nancy. Não é Afrodite e Eros, é Dioniso e sátiros. Não é pênis e vagina, é caralho e xoxota.
― Acontece que eu não quero mais ser tratada como uma prostituta. Quantas vezes você me trouxe flores? Nenhuma! Qual foi a última vez que você me trouxe um presente? Eu nem sequer me lembro. Qual foi a última vez que saímos para jantar juntos? A última vez foi no aniversário do meu pai há uns seis anos e você nem sequer tocou na sua carteira. Depois disso foram apenas lanches gordurosos em lanchonetes imundas.
Clarice levantou-se da cama, trocou de roupas e disse:
― Quer saber? Vou sair.
― Aonde você vai?
― Vou sair para comer algo decente com as minhas amigas. Pelo menos eu sei que delas eu posso esperar um tratamento mais respeitoso. Ligue para o Artur e saia para encher a cara com ele mais uma vez. É só isso o que você sabe fazer mesmo.
Ela saiu furiosa. Augusto ouviu o bater da porta. Pegou o telefone e ligou para o seu amigo.
― Oi.
― Artur?
― Fala, Gutão!
― Cara, a Clarice tá puta comigo.
― Por quê?
― Ela disse que eu sou insensível.
― Nossa, quanta perspicácia! Eu sempre achei que a Clarice uma mulher muito inteligente, mas nesse caso ela demorou um pouco a entender as coisas.
― Vá se foder! O problema é que ela saiu realmente brava comigo daqui. E o pior é que, só agora, eu me lembrei que hoje faz dez anos que estamos juntos.
― Cara, que saudades daquele show do Discharge. Aqueles, sim, eram bons tempos.
― Isso é verdade. Não trabalhávamos, não fazíamos merda nenhuma a não ser beber, tocar, editar uns fanzines e badernar pelas ruas.
― Bom, tirando os fanzines e os ensaios, pouca coisa mudou.
― Isso é. Mas não vamos desviar do assunto. Eu estou com problemas. Cara, o que é que eu faço?
― Comece me contando direito qual é o problema.
― Ela disse que eu preciso ser mais carinhoso, mais sensível.
― Que merda! Por que você não diz para ela ir procurar um babaca em um show do Belle and Sebastian?
― Porque eu a amo e não desejaria mal nenhum a ela.
Artur riu e disse:
― Cara, então dê uma boa trepada com ela que tudo se resolve.
― A maldita discussão começou quando eu a convidei para isso.
― Então você não deve estar fazendo o serviço direito, meu caro.
― Não é isso. É que ela disse que eu sou muito grosso.
― Porra! Então passe um lubrificante. Você deve estar machucando a pobrezinha.
― Não é isso, seu idiota. Ela disse que eu sou grosso no sentido de estúpido, entendeu?
― Ah, tá. Então comece a ler uns livros do Shakespeare, ouça bastante Legião Urbana e assista todos os episódios de O. C. - Um Estranho no Paraíso. Isso é um curso intensivo de sensibilidade. Vai dar certo.
― Mas isso só funciona a longo prazo. Eu preciso arrumar um jeito de acalmar os ânimos de imediato.
― Cara, mulher nenhuma resiste a um presente.
― Eu cheguei a pensar nisso, mas eu não faço nem idéia do que comprar.
― Mulheres gostam de roupas, perfumes, jóias… Essas coisas.
― Eu não tenho dinheiro para comprar jóias e não tenho competência para comprar um perfume ou uma roupa que possa realmente agradá-la. Eu corro o risco de só piorar o que já está fodido.
― Então use um pouco de bom senso. Dê uma volta em algumas lojas e compre algo que você acha que possa realmente deixá-la contente.
Augusto terminou a conversa. Pôs uma roupa e foi ao centro da cidade procurar algo que pudesse melhorar sua situação com Clarice, demonstrando carinho e a tal da sensibilidade. Após entrar em algumas lojas, comprou o bendito presente e foi para casa. Ao chegar, Clarice estava deitada no sofá lendo um livro de poesias de Pablo Neruda.
― Minha querida, eu pensei bem em tudo o que você disse e resolvi mudar. Você realmente merece um tratamento mais digno, merece mais atenção. Para demonstrar isso, trouxe-lhe um pequeno presente. E não pense que eu me esqueci do nosso aniversário de dez anos de namoro. Tome aqui.
Augusto lhe entregou uma caixa retangular. Clarice abriu.
― Augusto!
― Gostou, amor? É uma autêntica José Cuervo! Vamos tomar umas doses e ir para a cama?

Posted by Léo Passos (minuteman@bol.com.br) in 10:41:17 | Permalink | Comments (3)

Os Hostis de Hollywood

― Puta merda, Marcel, esse boteco está uma verdadeira merda hoje, não?
― É, eu já fui a lugares mais animados do que este. E não foram raras as vezes em que isso ocorreu.
― Que tal jogarmos uma sinuquinha?
Marcel disse olhando para a mesa de bilhar:
― Ah, Pedrão, aquela mesa é pior do que a minha escrivaninha velha e fodida.
― É, tenho que concordar. E também, pela quantidade de cervejas e vodcas que tomamos até agora, mesmo que essa mesa fosse a melhor do mundo, acho que demoraríamos a madrugada toda para terminarmos a partida.
O bar estava vazio. Fugazi tocando no aparelho de som velho e sem muita potência. Havia apenas cinco pessoas no recinto: João, o dono do bar; duas mulheres cinqüentonas extremamente embriagadas falando asneiras em alto tom em um canto, daquelas que ninguém sabe de onde surgiram, que só aparecem no fim da noite e que parecem estar sempre à caça de lugares decadentes; Marcel e Pedro.
João, percebendo o desânimo em seu estabelecimento, liga a tevê para tentar – desesperadamente, diga-se – levantar o astral do ambiente. Está passando um clássico das madrugadas televisivas: Um Sonho de Liberdade.
― Cara – disse Pedro – esse filme é bom pra cacete!
Ao que Marcel comenta:
― O filme realmente é bom, mas o Morgan Freeman é o rei! Ele é o cara mais legal do mundo! Conversar com ele deve ser demais.
― Cara, o que é que você está falando?
― Meu, olha só a cara dele. Ele é o cara mais sério do mundo!
― Mentira! O cara mais sério do mundo é o Clint Eastwood.
― Sim, mas ele é antipático. O Morgan Freeman é calado, mas é uma puta cara bacana. Quando ele sorri dá vontade de passar horas conversando com o cara. Imagina você tomando altas cervejas com ele. Depois de tomar várias, ele deve sorrir com mais freqüência e mostrar todo o seu potencial.
João, aumenta o volume da tevê.
― Mas em uma briga – disse Pedro – eu preferiria mil vezes ter o Clint do lado. Mesmo velhão, eu aposto que ele seria de grande utilidade nessas horas. Só com o seu olhar fulminante ele conseguiria fazer um cara mijar nas calças.
― Bem, isso é. Mas pra conversar ele deve ser um pé no saco. Aliás, seria muita sorte se ele abrisse a boca ao menos uma vez. Já o Morgan, quando abrisse a boca, seria para dizer algo grandioso, que você levaria para o resto da vida.
― O Clint prefere agir ao invés de teorizar. Ele é o homem-que-nunca-sorri, meu amigo. Ele prefere se comunicar através de olhares hostis.
― Ah, o cacete! O cara só faz tipo. Eu aposto que ele é daqueles caras que assiste Chaves e se mija de rir.
― Mas isso é óbvio! Todo mundo se mija de rir assistindo Chaves, mesmo sabendo de cor tudo o que acontece em cada episódio.
Umas das senhoras acabadas gritou ao fundo, levantando um dos braços e quase caindo da cadeira:
― Clint e Morgan o cacete! Foda mesmo era o Charles Bronson. Aposto que ele daria um cacete fenomenal nesses dois coroas.
― Sem contar o bigodinho dele, que era um tesão – disse a outra velha ébria.
João comentou baixinho com os rapazes:
― Fodeu! Vocês despertaram os dois dragões adormecidos. Sejam fortes e vocês sobreviverão.
― Puta merda. Era só o que me faltava ter que agüentar duas mocréias bêbadas – disse Marcel.
Pedro, olhou para as duas senhoras por cima do ombro, balançou a cabeça em sinal de indignação, tomou o resto de vodca em seu copo e disse:
― O mundo está realmente perdido. Não temos mais paz nem em nosso botequim preferido. Jão, desliga essa porra de tevê antes que novos comentários surjam por parte daquelas damas, encha o meu copo com mais vodca e traga outra Brahma.
Uma das donzelas levantou e se dirigiu ao balcão onde estavam os dois rapazes.
― Meu querido, seja cortês e me dê um gole dessa sua bebida. E, garçom, você não tem nenhum CD do Raulzito aí? Essa gritaria tá enchendo o saco.
Pedro, lançou um olhar nada amistoso à mulher e disse:
― Por que você não volta pra maldita sociedade alternativa de onde você nunca deveria ter saído e me deixa tomar minha bebida sossegado?
Consternada, a senhora retrucou:
― Olha aqui, seu bostinha, eu tenho idade para ser a sua mãe!
― Pois é, só que a minha mãe deve estar na casa dela neste momento fingindo que eu não existo. Por que a senhorita não faz o mesmo?
A outra mulher, que estava sentada lá no canto, levantou-se, dirigiu-se ao balcão, agarrou Marcel por trás, tascou-lhe uma úmida lambida em sua orelha cheia de cera e disse:
― Querido, que tal se nós pegássemos algumas cervas e uma garrafa de vodca e fossemos para a minha casa nos divertir?
Marcel, aceitando o picante convite, levantou-se e foi com a mulher.
Pedro, agora sem o seu amigo, dirigiu-se a outra senhora:
― Dona, sente-se aí que eu lhe pago uma dose.
Posted by Léo Passos (minuteman@bol.com.br) in 10:35:14 | Permalink | No Comments »