A Tal da Sensibilidade
Onze e meia da manhã em um quarto numa pequena casa do subúrbio. Um casal como outro qualquer que acabara de acordar.
― Porra, Augusto. Você é grosso pra caralho!
― Ué, por quê?
― Isso é jeito de falar com a sua mulher: “amor, vamos dar uma trepada”?
― Há dez anos eu falo assim contigo e você nunca reclamou. Por que toda essa indignação agora?
― Porque eu cansei desse seu jeito grosseiro. Vem para cima de mim fedendo álcool e me tratando como se eu fosse uma vadia barata qualquer.
― Vadia barata, não. Eu disse “amor” antes de lhe fazer o convite. Além do mais, você não é nenhuma virgem abstêmia.
Clarice se pôs a chorar.
― Querida, por que você está chorando? Tudo isso porque eu lhe convidei para uma fodinha?
― Olha, se eu soubesse que você iria se tornar um ogro insensível, eu nunca teria levado essa relação adiante.
― Você me conheceu em um show do Discharge. Você deveria saber que eu não seria nenhum cavalheiro galanteador.
― Eu não estou pedindo para você se tornar um Werther ou um Harry Haller, peço apenas para que você seja mais romântico, mais sensível. Demonstrar um pouquinho de carinho pela mulher que você diz amar não seria nada constrangedor.
― Você sabe muito bem que eu te amo, só que o nosso amor não é hollywoodiano, é Almodóvar. Não é Romeu e Julieta, é Sid e Nancy. Não é Afrodite e Eros, é Dioniso e sátiros. Não é pênis e vagina, é caralho e xoxota.
― Acontece que eu não quero mais ser tratada como uma prostituta. Quantas vezes você me trouxe flores? Nenhuma! Qual foi a última vez que você me trouxe um presente? Eu nem sequer me lembro. Qual foi a última vez que saímos para jantar juntos? A última vez foi no aniversário do meu pai há uns seis anos e você nem sequer tocou na sua carteira. Depois disso foram apenas lanches gordurosos em lanchonetes imundas.
Clarice levantou-se da cama, trocou de roupas e disse:
― Quer saber? Vou sair.
― Aonde você vai?
― Vou sair para comer algo decente com as minhas amigas. Pelo menos eu sei que delas eu posso esperar um tratamento mais respeitoso. Ligue para o Artur e saia para encher a cara com ele mais uma vez. É só isso o que você sabe fazer mesmo.
Ela saiu furiosa. Augusto ouviu o bater da porta. Pegou o telefone e ligou para o seu amigo.
― Oi.
― Artur?
― Fala, Gutão!
― Cara, a Clarice tá puta comigo.
― Por quê?
― Ela disse que eu sou insensível.
― Nossa, quanta perspicácia! Eu sempre achei que a Clarice uma mulher muito inteligente, mas nesse caso ela demorou um pouco a entender as coisas.
― Vá se foder! O problema é que ela saiu realmente brava comigo daqui. E o pior é que, só agora, eu me lembrei que hoje faz dez anos que estamos juntos.
― Cara, que saudades daquele show do Discharge. Aqueles, sim, eram bons tempos.
― Isso é verdade. Não trabalhávamos, não fazíamos merda nenhuma a não ser beber, tocar, editar uns fanzines e badernar pelas ruas.
― Bom, tirando os fanzines e os ensaios, pouca coisa mudou.
― Isso é. Mas não vamos desviar do assunto. Eu estou com problemas. Cara, o que é que eu faço?
― Comece me contando direito qual é o problema.
― Ela disse que eu preciso ser mais carinhoso, mais sensível.
― Que merda! Por que você não diz para ela ir procurar um babaca em um show do Belle and Sebastian?
― Porque eu a amo e não desejaria mal nenhum a ela.
Artur riu e disse:
― Cara, então dê uma boa trepada com ela que tudo se resolve.
― A maldita discussão começou quando eu a convidei para isso.
― Então você não deve estar fazendo o serviço direito, meu caro.
― Não é isso. É que ela disse que eu sou muito grosso.
― Porra! Então passe um lubrificante. Você deve estar machucando a pobrezinha.
― Não é isso, seu idiota. Ela disse que eu sou grosso no sentido de estúpido, entendeu?
― Ah, tá. Então comece a ler uns livros do Shakespeare, ouça bastante Legião Urbana e assista todos os episódios de O. C. - Um Estranho no Paraíso. Isso é um curso intensivo de sensibilidade. Vai dar certo.
― Mas isso só funciona a longo prazo. Eu preciso arrumar um jeito de acalmar os ânimos de imediato.
― Cara, mulher nenhuma resiste a um presente.
― Eu cheguei a pensar nisso, mas eu não faço nem idéia do que comprar.
― Mulheres gostam de roupas, perfumes, jóias… Essas coisas.
― Eu não tenho dinheiro para comprar jóias e não tenho competência para comprar um perfume ou uma roupa que possa realmente agradá-la. Eu corro o risco de só piorar o que já está fodido.
― Então use um pouco de bom senso. Dê uma volta em algumas lojas e compre algo que você acha que possa realmente deixá-la contente.
Augusto terminou a conversa. Pôs uma roupa e foi ao centro da cidade procurar algo que pudesse melhorar sua situação com Clarice, demonstrando carinho e a tal da sensibilidade. Após entrar em algumas lojas, comprou o bendito presente e foi para casa. Ao chegar, Clarice estava deitada no sofá lendo um livro de poesias de Pablo Neruda.
― Minha querida, eu pensei bem em tudo o que você disse e resolvi mudar. Você realmente merece um tratamento mais digno, merece mais atenção. Para demonstrar isso, trouxe-lhe um pequeno presente. E não pense que eu me esqueci do nosso aniversário de dez anos de namoro. Tome aqui.
Augusto lhe entregou uma caixa retangular. Clarice abriu.
― Augusto!
― Gostou, amor? É uma autêntica José Cuervo! Vamos tomar umas doses e ir para a cama?
― Porra, Augusto. Você é grosso pra caralho!
― Ué, por quê?
― Isso é jeito de falar com a sua mulher: “amor, vamos dar uma trepada”?
― Há dez anos eu falo assim contigo e você nunca reclamou. Por que toda essa indignação agora?
― Porque eu cansei desse seu jeito grosseiro. Vem para cima de mim fedendo álcool e me tratando como se eu fosse uma vadia barata qualquer.
― Vadia barata, não. Eu disse “amor” antes de lhe fazer o convite. Além do mais, você não é nenhuma virgem abstêmia.
Clarice se pôs a chorar.
― Querida, por que você está chorando? Tudo isso porque eu lhe convidei para uma fodinha?
― Olha, se eu soubesse que você iria se tornar um ogro insensível, eu nunca teria levado essa relação adiante.
― Você me conheceu em um show do Discharge. Você deveria saber que eu não seria nenhum cavalheiro galanteador.
― Eu não estou pedindo para você se tornar um Werther ou um Harry Haller, peço apenas para que você seja mais romântico, mais sensível. Demonstrar um pouquinho de carinho pela mulher que você diz amar não seria nada constrangedor.
― Você sabe muito bem que eu te amo, só que o nosso amor não é hollywoodiano, é Almodóvar. Não é Romeu e Julieta, é Sid e Nancy. Não é Afrodite e Eros, é Dioniso e sátiros. Não é pênis e vagina, é caralho e xoxota.― Acontece que eu não quero mais ser tratada como uma prostituta. Quantas vezes você me trouxe flores? Nenhuma! Qual foi a última vez que você me trouxe um presente? Eu nem sequer me lembro. Qual foi a última vez que saímos para jantar juntos? A última vez foi no aniversário do meu pai há uns seis anos e você nem sequer tocou na sua carteira. Depois disso foram apenas lanches gordurosos em lanchonetes imundas.
Clarice levantou-se da cama, trocou de roupas e disse:
― Quer saber? Vou sair.
― Aonde você vai?
― Vou sair para comer algo decente com as minhas amigas. Pelo menos eu sei que delas eu posso esperar um tratamento mais respeitoso. Ligue para o Artur e saia para encher a cara com ele mais uma vez. É só isso o que você sabe fazer mesmo.
Ela saiu furiosa. Augusto ouviu o bater da porta. Pegou o telefone e ligou para o seu amigo.
― Oi.
― Artur?
― Fala, Gutão!
― Cara, a Clarice tá puta comigo.
― Por quê?
― Ela disse que eu sou insensível.
― Nossa, quanta perspicácia! Eu sempre achei que a Clarice uma mulher muito inteligente, mas nesse caso ela demorou um pouco a entender as coisas.
― Vá se foder! O problema é que ela saiu realmente brava comigo daqui. E o pior é que, só agora, eu me lembrei que hoje faz dez anos que estamos juntos.
― Cara, que saudades daquele show do Discharge. Aqueles, sim, eram bons tempos.― Isso é verdade. Não trabalhávamos, não fazíamos merda nenhuma a não ser beber, tocar, editar uns fanzines e badernar pelas ruas.
― Bom, tirando os fanzines e os ensaios, pouca coisa mudou.
― Isso é. Mas não vamos desviar do assunto. Eu estou com problemas. Cara, o que é que eu faço?
― Comece me contando direito qual é o problema.
― Ela disse que eu preciso ser mais carinhoso, mais sensível.
― Que merda! Por que você não diz para ela ir procurar um babaca em um show do Belle and Sebastian?
― Porque eu a amo e não desejaria mal nenhum a ela.
Artur riu e disse:
― Cara, então dê uma boa trepada com ela que tudo se resolve.
― A maldita discussão começou quando eu a convidei para isso.
― Então você não deve estar fazendo o serviço direito, meu caro.
― Não é isso. É que ela disse que eu sou muito grosso.
― Porra! Então passe um lubrificante. Você deve estar machucando a pobrezinha.
― Não é isso, seu idiota. Ela disse que eu sou grosso no sentido de estúpido, entendeu?
― Ah, tá. Então comece a ler uns livros do Shakespeare, ouça bastante Legião Urbana e assista todos os episódios de O. C. - Um Estranho no Paraíso. Isso é um curso intensivo de sensibilidade. Vai dar certo.
― Mas isso só funciona a longo prazo. Eu preciso arrumar um jeito de acalmar os ânimos de imediato.
― Cara, mulher nenhuma resiste a um presente.
― Eu cheguei a pensar nisso, mas eu não faço nem idéia do que comprar.
― Mulheres gostam de roupas, perfumes, jóias… Essas coisas.
― Eu não tenho dinheiro para comprar jóias e não tenho competência para comprar um perfume ou uma roupa que possa realmente agradá-la. Eu corro o risco de só piorar o que já está fodido.
― Então use um pouco de bom senso. Dê uma volta em algumas lojas e compre algo que você acha que possa realmente deixá-la contente.
Augusto terminou a conversa. Pôs uma roupa e foi ao centro da cidade procurar algo que pudesse melhorar sua situação com Clarice, demonstrando carinho e a tal da sensibilidade. Após entrar em algumas lojas, comprou o bendito presente e foi para casa. Ao chegar, Clarice estava deitada no sofá lendo um livro de poesias de Pablo Neruda.
― Minha querida, eu pensei bem em tudo o que você disse e resolvi mudar. Você realmente merece um tratamento mais digno, merece mais atenção. Para demonstrar isso, trouxe-lhe um pequeno presente. E não pense que eu me esqueci do nosso aniversário de dez anos de namoro. Tome aqui.
Augusto lhe entregou uma caixa retangular. Clarice abriu.
― Augusto!
― Gostou, amor? É uma autêntica José Cuervo! Vamos tomar umas doses e ir para a cama?

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10:41:17
aaah! eu AMO esse, hein?!
Quem escreve isso? É bom demais!
Tania (http://rostinhosbonitos.blogspot.com)
não dá pra comentar isso, Léo!
é péssimo demais, mas ao mesmo tempo é bom pra caralho!!!
espero nunca conhecer um cara desse tipo
bjo
Raquel