Os Hostis de Hollywood
― Puta merda, Marcel, esse boteco está uma verdadeira merda hoje, não?
― É, eu já fui a lugares mais animados do que este. E não foram raras as vezes em que isso ocorreu.
― Que tal jogarmos uma sinuquinha?
Marcel disse olhando para a mesa de bilhar:
― Ah, Pedrão, aquela mesa é pior do que a minha escrivaninha velha e fodida.
― É, tenho que concordar. E também, pela quantidade de cervejas e vodcas que tomamos até agora, mesmo que essa mesa fosse a melhor do mundo, acho que demoraríamos a madrugada toda para terminarmos a partida.
O bar estava vazio. Fugazi tocando no aparelho de som velho e sem muita potência. Havia apenas cinco pessoas no recinto: João, o dono do bar; duas mulheres cinqüentonas extremamente embriagadas falando asneiras em alto tom em um canto, daquelas que ninguém sabe de onde surgiram, que só aparecem no fim da noite e que parecem estar sempre à caça de lugares decadentes; Marcel e Pedro.
João, percebendo o desânimo em seu estabelecimento, liga a tevê para tentar – desesperadamente, diga-se – levantar o astral do ambiente. Está passando um clássico das madrugadas televisivas: Um Sonho de Liberdade.
― Cara – disse Pedro – esse filme é bom pra cacete!
Ao que Marcel comenta:
― O filme realmente é bom, mas o Morgan Freeman é o rei! Ele é o cara mais legal do mundo! Conversar com ele deve ser demais.
― Cara, o que é que você está falando?
― Meu, olha só a cara dele. Ele é o cara mais sério do mundo!
― Mentira! O cara mais sério do mundo é o Clint Eastwood.
― Sim, mas ele é antipático. O Morgan Freeman é calado, mas é uma puta cara bacana. Quando ele sorri dá vontade de passar horas conversando com o cara. Imagina você tomando altas cervejas com ele. Depois de tomar várias, ele deve sorrir com mais freqüência e mostrar todo o seu potencial.
João, aumenta o volume da tevê.
― Mas em uma briga – disse Pedro – eu preferiria mil vezes ter o Clint do lado. Mesmo velhão, eu aposto que ele seria de grande utilidade nessas horas. Só com o seu olhar fulminante ele conseguiria fazer um cara mijar nas calças.
― Bem, isso é. Mas pra conversar ele deve ser um pé no saco. Aliás, seria muita sorte se ele abrisse a boca ao menos uma vez. Já o Morgan, quando abrisse a boca, seria para dizer algo grandioso, que você levaria para o resto da vida.
― O Clint prefere agir ao invés de teorizar. Ele é o homem-que-nunca-sorri, meu amigo. Ele prefere se comunicar através de olhares hostis.
― Ah, o cacete! O cara só faz tipo. Eu aposto que ele é daqueles caras que assiste Chaves e se mija de rir.
― Mas isso é óbvio! Todo mundo se mija de rir assistindo Chaves, mesmo sabendo de cor tudo o que acontece em cada episódio.
Umas das senhoras acabadas gritou ao fundo, levantando um dos braços e quase caindo da cadeira:
― Clint e Morgan o cacete! Foda mesmo era o Charles Bronson. Aposto que ele daria um cacete fenomenal nesses dois coroas.
― Sem contar o bigodinho dele, que era um tesão – disse a outra velha ébria.
João comentou baixinho com os rapazes:
― Fodeu! Vocês despertaram os dois dragões adormecidos. Sejam fortes e vocês sobreviverão.
― Puta merda. Era só o que me faltava ter que agüentar duas mocréias bêbadas – disse Marcel.
Pedro, olhou para as duas senhoras por cima do ombro, balançou a cabeça em sinal de indignação, tomou o resto de vodca em seu copo e disse:
― O mundo está realmente perdido. Não temos mais paz nem em nosso botequim preferido. Jão, desliga essa porra de tevê antes que novos comentários surjam por parte daquelas damas, encha o meu copo com mais vodca e traga outra Brahma.
Uma das donzelas levantou e se dirigiu ao balcão onde estavam os dois rapazes.
― Meu querido, seja cortês e me dê um gole dessa sua bebida. E, garçom, você não tem nenhum CD do Raulzito aí? Essa gritaria tá enchendo o saco.
Pedro, lançou um olhar nada amistoso à mulher e disse:
― Por que você não volta pra maldita sociedade alternativa de onde você nunca deveria ter saído e me deixa tomar minha bebida sossegado?
Consternada, a senhora retrucou:
― Olha aqui, seu bostinha, eu tenho idade para ser a sua mãe!
― Pois é, só que a minha mãe deve estar na casa dela neste momento fingindo que eu não existo. Por que a senhorita não faz o mesmo?
A outra mulher, que estava sentada lá no canto, levantou-se, dirigiu-se ao balcão, agarrou Marcel por trás, tascou-lhe uma úmida lambida em sua orelha cheia de cera e disse:
― Querido, que tal se nós pegássemos algumas cervas e uma garrafa de vodca e fossemos para a minha casa nos divertir?
Marcel, aceitando o picante convite, levantou-se e foi com a mulher.
Pedro, agora sem o seu amigo, dirigiu-se a outra senhora:
― Dona, sente-se aí que eu lhe pago uma dose.
― É, eu já fui a lugares mais animados do que este. E não foram raras as vezes em que isso ocorreu.
― Que tal jogarmos uma sinuquinha?
Marcel disse olhando para a mesa de bilhar:
― Ah, Pedrão, aquela mesa é pior do que a minha escrivaninha velha e fodida.
― É, tenho que concordar. E também, pela quantidade de cervejas e vodcas que tomamos até agora, mesmo que essa mesa fosse a melhor do mundo, acho que demoraríamos a madrugada toda para terminarmos a partida.
O bar estava vazio. Fugazi tocando no aparelho de som velho e sem muita potência. Havia apenas cinco pessoas no recinto: João, o dono do bar; duas mulheres cinqüentonas extremamente embriagadas falando asneiras em alto tom em um canto, daquelas que ninguém sabe de onde surgiram, que só aparecem no fim da noite e que parecem estar sempre à caça de lugares decadentes; Marcel e Pedro.João, percebendo o desânimo em seu estabelecimento, liga a tevê para tentar – desesperadamente, diga-se – levantar o astral do ambiente. Está passando um clássico das madrugadas televisivas: Um Sonho de Liberdade.
― Cara – disse Pedro – esse filme é bom pra cacete!
Ao que Marcel comenta:
― O filme realmente é bom, mas o Morgan Freeman é o rei! Ele é o cara mais legal do mundo! Conversar com ele deve ser demais.
― Cara, o que é que você está falando?
― Meu, olha só a cara dele. Ele é o cara mais sério do mundo!
― Mentira! O cara mais sério do mundo é o Clint Eastwood.
― Sim, mas ele é antipático. O Morgan Freeman é calado, mas é uma puta cara bacana. Quando ele sorri dá vontade de passar horas conversando com o cara. Imagina você tomando altas cervejas com ele. Depois de tomar várias, ele deve sorrir com mais freqüência e mostrar todo o seu potencial.
João, aumenta o volume da tevê.
― Mas em uma briga – disse Pedro – eu preferiria mil vezes ter o Clint do lado. Mesmo velhão, eu aposto que ele seria de grande utilidade nessas horas. Só com o seu olhar fulminante ele conseguiria fazer um cara mijar nas calças.― Bem, isso é. Mas pra conversar ele deve ser um pé no saco. Aliás, seria muita sorte se ele abrisse a boca ao menos uma vez. Já o Morgan, quando abrisse a boca, seria para dizer algo grandioso, que você levaria para o resto da vida.
― O Clint prefere agir ao invés de teorizar. Ele é o homem-que-nunca-sorri, meu amigo. Ele prefere se comunicar através de olhares hostis.
― Ah, o cacete! O cara só faz tipo. Eu aposto que ele é daqueles caras que assiste Chaves e se mija de rir.
― Mas isso é óbvio! Todo mundo se mija de rir assistindo Chaves, mesmo sabendo de cor tudo o que acontece em cada episódio.
Umas das senhoras acabadas gritou ao fundo, levantando um dos braços e quase caindo da cadeira:
― Clint e Morgan o cacete! Foda mesmo era o Charles Bronson. Aposto que ele daria um cacete fenomenal nesses dois coroas.
― Sem contar o bigodinho dele, que era um tesão – disse a outra velha ébria.
João comentou baixinho com os rapazes:
― Fodeu! Vocês despertaram os dois dragões adormecidos. Sejam fortes e vocês sobreviverão.
― Puta merda. Era só o que me faltava ter que agüentar duas mocréias bêbadas – disse Marcel.
Pedro, olhou para as duas senhoras por cima do ombro, balançou a cabeça em sinal de indignação, tomou o resto de vodca em seu copo e disse:
― O mundo está realmente perdido. Não temos mais paz nem em nosso botequim preferido. Jão, desliga essa porra de tevê antes que novos comentários surjam por parte daquelas damas, encha o meu copo com mais vodca e traga outra Brahma.
Uma das donzelas levantou e se dirigiu ao balcão onde estavam os dois rapazes.
― Meu querido, seja cortês e me dê um gole dessa sua bebida. E, garçom, você não tem nenhum CD do Raulzito aí? Essa gritaria tá enchendo o saco.
Pedro, lançou um olhar nada amistoso à mulher e disse:
― Por que você não volta pra maldita sociedade alternativa de onde você nunca deveria ter saído e me deixa tomar minha bebida sossegado?
Consternada, a senhora retrucou:
― Olha aqui, seu bostinha, eu tenho idade para ser a sua mãe!
― Pois é, só que a minha mãe deve estar na casa dela neste momento fingindo que eu não existo. Por que a senhorita não faz o mesmo?
A outra mulher, que estava sentada lá no canto, levantou-se, dirigiu-se ao balcão, agarrou Marcel por trás, tascou-lhe uma úmida lambida em sua orelha cheia de cera e disse:
― Querido, que tal se nós pegássemos algumas cervas e uma garrafa de vodca e fossemos para a minha casa nos divertir?
Marcel, aceitando o picante convite, levantou-se e foi com a mulher.
Pedro, agora sem o seu amigo, dirigiu-se a outra senhora:
― Dona, sente-se aí que eu lhe pago uma dose.
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