Wednesday, April 19, 2006

Os Hostis de Hollywood

― Puta merda, Marcel, esse boteco está uma verdadeira merda hoje, não?
― É, eu já fui a lugares mais animados do que este. E não foram raras as vezes em que isso ocorreu.
― Que tal jogarmos uma sinuquinha?
Marcel disse olhando para a mesa de bilhar:
― Ah, Pedrão, aquela mesa é pior do que a minha escrivaninha velha e fodida.
― É, tenho que concordar. E também, pela quantidade de cervejas e vodcas que tomamos até agora, mesmo que essa mesa fosse a melhor do mundo, acho que demoraríamos a madrugada toda para terminarmos a partida.
O bar estava vazio. Fugazi tocando no aparelho de som velho e sem muita potência. Havia apenas cinco pessoas no recinto: João, o dono do bar; duas mulheres cinqüentonas extremamente embriagadas falando asneiras em alto tom em um canto, daquelas que ninguém sabe de onde surgiram, que só aparecem no fim da noite e que parecem estar sempre à caça de lugares decadentes; Marcel e Pedro.
João, percebendo o desânimo em seu estabelecimento, liga a tevê para tentar – desesperadamente, diga-se – levantar o astral do ambiente. Está passando um clássico das madrugadas televisivas: Um Sonho de Liberdade.
― Cara – disse Pedro – esse filme é bom pra cacete!
Ao que Marcel comenta:
― O filme realmente é bom, mas o Morgan Freeman é o rei! Ele é o cara mais legal do mundo! Conversar com ele deve ser demais.
― Cara, o que é que você está falando?
― Meu, olha só a cara dele. Ele é o cara mais sério do mundo!
― Mentira! O cara mais sério do mundo é o Clint Eastwood.
― Sim, mas ele é antipático. O Morgan Freeman é calado, mas é uma puta cara bacana. Quando ele sorri dá vontade de passar horas conversando com o cara. Imagina você tomando altas cervejas com ele. Depois de tomar várias, ele deve sorrir com mais freqüência e mostrar todo o seu potencial.
João, aumenta o volume da tevê.
― Mas em uma briga – disse Pedro – eu preferiria mil vezes ter o Clint do lado. Mesmo velhão, eu aposto que ele seria de grande utilidade nessas horas. Só com o seu olhar fulminante ele conseguiria fazer um cara mijar nas calças.
― Bem, isso é. Mas pra conversar ele deve ser um pé no saco. Aliás, seria muita sorte se ele abrisse a boca ao menos uma vez. Já o Morgan, quando abrisse a boca, seria para dizer algo grandioso, que você levaria para o resto da vida.
― O Clint prefere agir ao invés de teorizar. Ele é o homem-que-nunca-sorri, meu amigo. Ele prefere se comunicar através de olhares hostis.
― Ah, o cacete! O cara só faz tipo. Eu aposto que ele é daqueles caras que assiste Chaves e se mija de rir.
― Mas isso é óbvio! Todo mundo se mija de rir assistindo Chaves, mesmo sabendo de cor tudo o que acontece em cada episódio.
Umas das senhoras acabadas gritou ao fundo, levantando um dos braços e quase caindo da cadeira:
― Clint e Morgan o cacete! Foda mesmo era o Charles Bronson. Aposto que ele daria um cacete fenomenal nesses dois coroas.
― Sem contar o bigodinho dele, que era um tesão – disse a outra velha ébria.
João comentou baixinho com os rapazes:
― Fodeu! Vocês despertaram os dois dragões adormecidos. Sejam fortes e vocês sobreviverão.
― Puta merda. Era só o que me faltava ter que agüentar duas mocréias bêbadas – disse Marcel.
Pedro, olhou para as duas senhoras por cima do ombro, balançou a cabeça em sinal de indignação, tomou o resto de vodca em seu copo e disse:
― O mundo está realmente perdido. Não temos mais paz nem em nosso botequim preferido. Jão, desliga essa porra de tevê antes que novos comentários surjam por parte daquelas damas, encha o meu copo com mais vodca e traga outra Brahma.
Uma das donzelas levantou e se dirigiu ao balcão onde estavam os dois rapazes.
― Meu querido, seja cortês e me dê um gole dessa sua bebida. E, garçom, você não tem nenhum CD do Raulzito aí? Essa gritaria tá enchendo o saco.
Pedro, lançou um olhar nada amistoso à mulher e disse:
― Por que você não volta pra maldita sociedade alternativa de onde você nunca deveria ter saído e me deixa tomar minha bebida sossegado?
Consternada, a senhora retrucou:
― Olha aqui, seu bostinha, eu tenho idade para ser a sua mãe!
― Pois é, só que a minha mãe deve estar na casa dela neste momento fingindo que eu não existo. Por que a senhorita não faz o mesmo?
A outra mulher, que estava sentada lá no canto, levantou-se, dirigiu-se ao balcão, agarrou Marcel por trás, tascou-lhe uma úmida lambida em sua orelha cheia de cera e disse:
― Querido, que tal se nós pegássemos algumas cervas e uma garrafa de vodca e fossemos para a minha casa nos divertir?
Marcel, aceitando o picante convite, levantou-se e foi com a mulher.
Pedro, agora sem o seu amigo, dirigiu-se a outra senhora:
― Dona, sente-se aí que eu lhe pago uma dose.
Posted by Léo Passos (minuteman@bol.com.br) at 10:35:14
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