Wednesday, May 3, 2006

Os sabores das lembranças

Em minha adolescência, como a maioria das garotas, eu tinha sonhos: casar, ter filhos, ser bem sucedida e, principalmente, aguardava ansiosa pelo grande encontro com meu príncipe encantando e pela tão esperada primeira vez. Confesso que meus almejos não eram nada criativos e não passavam de ideais pequeno-burgueses juvenis. Ora, mas eu não passava de uma adolescente comum de classe média.

O casamento não aconteceu, os filhos não vieram, o conceito de vida bem sucedida já é bem relativo para mim hoje em dia e os príncipes e vagabundos encantados surgiram tão rápido quanto sumiram do meu caminho. Alguns até eram bons rapazes, mas eu custei a enxergar isso e hoje eles levam suas vidas fora do meu alcance. Talvez tenha sido excesso de autodefesa. Talvez… De qualquer forma, eu acredito que tenha sido melhor dessa forma. Ao menos para eles…

É incrível como algumas passagens de nossas vidas podem influenciar pelo resto de nossa história. Parece que o gosto amargo nunca sai da boca; as tristes lembranças nunca vão embora; a ferida nunca se fecha. O câncer nunca morre! No entanto, as doces lembranças vão se apagando, se apagando, até que elas deixam de ser tão doces ou até que deixam de ser lembranças. Já não me lembro mais do sabor do algodão-doce que eu comia nos parques de diversão, não me lembro da sensação do vento batendo no rosto quando eu andava de patins no parque, não me lembro do nome de nenhuma colega ou professora da escola e não me lembro de como era a nossa casa. Simplesmente não me lembro.

Mas eu me lembro perfeitamente da minha primeira vez. Lembro-me como se tivesse sido ontem, como se tivesse ocorrido há alguns minutos. E também me lembro do vazio interminável que senti logo em seguida. Engraçado, me lembro do vazio, mas não me recordo de muitas coisas concretas. De concreto, para mim, só existem duas sensações: ódio e dor.

A primeira vez não teve nada de cor-de-rosa, não foi romântica e nem de longe foi como eu esperava que fosse. Mas certamente foi inesquecível. Amargamente inesquecível. Nunca vou me esquecer daquela barba nojenta roçando o meu pescoço, o bafo pungente de uísque e aquelas ameaças que, por vezes, vinham em tom consolativo. Tais memórias custaram a deixar de me perseguir incessantemente, mas frequentemente retornam de maneira aterradora.

Hoje eu não tenho mais sonhos. Porém, o maior deles eu realizei. Espero que você esteja queimando no inferno, papai! Inegavelmente isso me deixa mais feliz e tranqüila.

Posted by Léo Passos (minuteman@bol.com.br) at 01:21:19
Comments

4 Responses to “Os sabores das lembranças”

  1. Guilherme says:

    DEMAIS! Ótima a idéia de usar uma mulher como eu-lírico. ótimas descrições (principalmente a da primeira vez). Muito boas as digressões no meio do texto (“já não lembro de X, já não lembro de Y…”). Esse texto é mais minha cara, eu sou fã de textos comtemplativos. E o final é grotesco e sarcástico e lindo.

    Parabéns.

  2. Anonymous says:

    Você me surpreendeu nesse conto, hein senhor escritor! Se todo seu sumisso renderá contos desse tipo, ótimo! Estude mesmo!
    E a gente se esbarra por aí…

    besos besos

    obs: ler o último conto ouvindo “jesu” deu medo. trilha sonora perfeita pro texto…

  3. Cátia says:

    anônimo nada. eu tenho um nome… hehehe!

  4. Anonymous says:

    um arraso! adorei, de verdade…tirando o relato da 1ª vez, tem tudo a ver comigo.
    beijos, chay
    Raquel

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