Monday, May 26, 2008

Dragão-de-komodo

8 horas da manhã de uma quinta-feira. Toca o maldito telefone! Que merda eu tinha na cabeça quando comprei essa joça?! É da agência de empregos, me convocando para uma entrevista dentro de uma hora. Ando absolutamente sem grana, por isso preciso ir para esse martirizante processo de seleção empregatícia mesmo que minha cabeça esteja quase me incapacitando a arrastar minha bunda até o banheiro para escovar os dentes, já que a noite de ontem foi pesada. É, extrapolei um pouquinho os limites. Saímos para tomar algumas cervejas, mas o “algumas” se transformou em um monstro alucinado, que se metamorfoseou em uma ressaca incontrolável e nada estimulante. O pior é que nem tenho mais a coragem de dizer que nunca mais irei beber, pois sei que isso seria uma mentira daquelas bem sem-vergonha.

Dentes escovados, micro banho tomado, roupa trocada. Aliás, escovar os dentes nessas horas é absolutamente essencial e vital, pois o gosto que fica na boca é tão pútrido e amargo que chego a me sentir um dragão-de-komodo; acho que se eu mordesse minha própria língua morreria por infecção generalizada. Vou à tal agência para ver no que dá. Tenho que ir a pé, pois meu senso de responsabilidade ímpar fez com que eu gastasse todo o dinheiro com bebidas ontem, portanto não tenho um tostão para pegar um ônibus. Meu corpo implora ensandecidamente para que eu retorne à cama, mas esse mesmo corpo pouco provido de qualidades também irá implorar por alimentos dentro em breve, e minha despensa não anda por empolgar olhares famintos. A geladeira, então, parece uma região dos confins da Sibéria, com gelo por todos os lados e nada mais. Apenas alguns vegetais em estágio avançado de putrefação, um tubo de ketchup quase vazio, uma garrafa d’água completamente vazia – para o desespero da minha ressaca devastadora – e uma caixa oitavada com uns pedaços de pizza que eu nem tive coragem de abrir para ver como estavam. O cheiro nauseabundo empesteou a casa. Era o momento propício para sair correndo em jejum.

Após uma caminhada de meia hora, que normalmente eu faria em uns 15 ou 20 minutos se não estivesse tão deteriorado, chego à agência de empregos. Minha cabeça dói, meus olhos doem, meu estômago dói, estou zonzo e minha boca está seca, fora o bafo monstruoso de álcool e tabaco. Entro tentando me manter aprumado com a camisa amassada que não tive tempo de passar. Levo a mão à boca para tentar disfarçar o bafo asqueroso e pergunto à atendente onde tem água. Bebo diversos copos e, então, vou ao que interessa. Preencho algumas fichas abarrotadas de perguntas imbecis e mal consigo me concentrar. Pego meus documentos para colar as respostas, pois meu judiado cérebro está incapacitado de lembrar de tantos números. Preencho tudo com a maior má vontade do universo e entrego a ficha à moça. Ele é lindinha e meiga, mas não consigo esboçar qualquer reação de simpatia. Sou encaminhado à outra sala para uma entrevista. Entro sozinho, já que estou atrasado. Um sujeitinho pedante e enfadonho me faz algumas perguntas e parece perceber que não estou nos meus melhores dias. Ele diz que estou dispensado e que serei comunicado caso eu seja convocado para a próxima etapa, coisa que obviamente não irá acontecer, pois minha entrevista foi um fracasso constrangedor. O pouco que resta do meu organismo urge pela minha cama.

À tarde, ao acordar, a ressaca está menos intensa, mas a fome está avassaladora. Vou à padaria e peço para o seu Toninho marcar quatro pães, duzentos gramas de mortadela e uma tubaína. O restinho do ketchup foi suficiente para apenas um dos pães. Não é um manjar dos deuses, mas ao menos consegui comer sem vomitar. Ligo a tevê. Só tem merda! O que fazer numa sexta-feira à tarde sem nenhum centavo na carteira e com uma puta ressaca? O óbvio: dormir.

Acordo no breu da noite, que se iniciara há pouco mais de uma hora. Ligo a luz e penso: “Puta merda, como vou fazer pra pagar a conta de luz?”. Deixo pra pensar nisso depois. A dor de cabeça ainda permanece, apesar de já não ser tão intensa. Mas a sede é grande. Tomo água da pia do banheiro enquanto lavo o rosto numa tentativa vã de me recompor. Mais um pão com mortadela, o último que sobrou. Nesse instante ocorre uma revolução em meu estômago. Corro para o banheiro e quase viro do avesso. Suando frio, fico por cerca de uma hora sentado no trono, não como um rei, mas como um demônio horroroso em meio ao fedor e à imundície. Outro banho se faz absolutamente necessário. O telefone toca, saio correndo todo molhado pra atender. Luciano me chamando pra tomar umas cervejas, “Afinal, hoje é sexta-feira!”, ele argumenta. Alego não ter dinheiro, mas isso não o convence. Seu poder de persuasão é elevado e logo estamos no boteco. Dúzias de cervejas, garotas, conversas acaloradas, porções de amendoim e milhares de cigarros. Outro boteco. A mesma história: cervejas, garotas, conversas, amendoins, cigarros…

8 horas da manhã. A campainha toca. Meu cérebro está derretendo e mal consigo abrir os olhos. É a dona Zuleica cobrando o aluguel atrasado. Será que se eu mordê-la no pescoço ela morre de infecção generalizada?

Posted by Léo Passos (minuteman@bol.com.br) at 21:39:36
Comments

5 Responses to “Dragão-de-komodo”

  1. Eu gostei de Dragão de comôdo! Cara por quantas vezes não senti o gosto de minhas próprias bactérias na boca haha…acho que na verdade ela secar é um sistema de auto defesa, com a boca seca vc não engole a própria saliva (pois no dia seguinte isso literalmente não existe) com tais Bactérias infecciosas…

  2. Anonymous says:

    Tirando o aluguel e a mortadela, acho que vi a perfeita narração de um dia da sua vida!!! rsrsrsrsrsrs
    Beijs Léo!

  3. Gabis says:

    Adorei!! Adorei!! Adorei!!!
    Pronto viu, eu faço comentários, mas nada muito profundo…

  4. Anonymous says:

    triste!

  5. Anonymous says:

    será que eu li “um dia na vida de Leonardo Passos”?! espero que não…
    triste!

    beijos, chay
    Raquel

Leave a Reply